Quem Sou Eu?

Eu sou o pequeno monte em cujas encostas crescem as faias,
De onde colhes o orvalho matinal que te sacia,
Em cujos galhos as aves se abrigam,
Dos quais o canto te alegra e anima.
Quem sou eu?

Eu sou as ondas do mar, ligeiras, fluindo entre os teus cabelos,
Que produzem as correntes, que te soltam.
E te levo a navegar, perto, longe, em nós.
Sou teu cais itinerante.
Quem sou eu?

Eu sou a brisa inesperada, que bagunça teus cabelos,
E que talvez te mareie os olhos, e te traga uma ou duas lágrimas.
Mas que te refresca na calmaria, te leva pra cama em noites incertas,
Te beija o rosto, aquece o leito.
Mas que passa rápido!
E se não me percebes, eu já parti.
E resta o ardor da solidão,
O frio da bruma que turva a visão.

E então te lamentarás.
Quem era eu?

Frida

Orelha erguida em alerta
Outra caída por falta de opção
Não sabe se fica desperta
Ou sabe que é tudo em vão

O sono de um olho aberto
O ronco de uma boca fechada
A companhia sempre discreta
No conforto de uma cama apertada

Como não ver teus tantos defeitos
Ou como não amar tua perfeição
Tão incoerente essa tal de Frida
Que não sabe se é gente
Ou se esquece que é cão.

O amor bem-sucedido é uma guerra, em que os dois lados se rendem.
elkjaer.tumblr.com

Amar

Penso que conjugar o verbo amar deveria ser crime hediondo; ser considerado pecado, tal qual dizer Seu nome em vão. A não ser no futuro do pretérito, é claro, sujeito às condições impossíveis de transformar o coração do homem. Daí então, ele amaria.
O uso indiscriminado do verbo amor é, aliás, o maior exemplo de deterioração de uma criação, por conta do domínio público. Seria muito melhor de fato, se ainda estivesse sob Seu direito autoral; intocado, intocável.
Todavia, aos que o conjugam indiscriminadamente, sem qualquer temor, fica o alerta! O amor carrega consigo uma maldição!

Se tratá-lo com descaso, se mencioná-lo sem pudor, se tão somente ignorar seus avisos, estará condenado a uma pena ainda pior que a inane morte:

Jamais amarás. Amarás sem jamais ser amado.

Não Existe Amor Em SP. Pero en Santiago… on Flickr.There’s no love in São Paulo. But at Santiago…

Não Existe Amor Em SP. Pero en Santiago… on Flickr.

There’s no love in São Paulo. But at Santiago…

Os Três Mal-Amados (João Cabral de Melo Neto)

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.

Cansaço do não querer

Já não quero a solidão da liberdade.
Me cansei de ser livre.
Descobri que prefiro a prisão do abraço,
A cadeia dos sorrisos cativantes.

Me cansei também de ser inteiro.
Quero viver aos pedaços;
Parte amando e parte sofrendo,
Parte te querendo, e a outra te querendo mais.

Já não quero ter tudo pra mim.
Quero dividir, dar por livre espontâneo apego,
O meu amor, o meu carinho,
As minhas queixas e desilusões.

Cansei então de te escrever,
Versos e mais versos, sem jamais remetê-los.
Na esperança de que os lesse perdidos à deriva.
Talvez eu só tenha me cansado de você.

Desassossego

Todo drama tem sua ponta de humor,
Todo humor tem uma ponta de verdade,
Toda verdade tem um quê de desejo,
E todo desejo repousa em uma esperança.
Toda esperança esbarra sempre no cansaço,
E o cansaço é subjugado pela vontade,
E a vontade é de te encontrar.

Flambeau Alada

Donde outrora nada havia, senão esquecimento,
Trouxeram-na, alada, as brumas do tempo;
Flambeau renascida, dalém de seus costumeiros seis meses de vida.

Mais rápida que o lógico pensar,
Num voo rasante, e em chamas,
Abrasou-me o coração dantes envilecido.

Ao que, o forte se dobrou,
E o passar do tempo reverteu-se a voltar,
E converteu-se em de novo.

Retive o ar, como que prendendo os segundos velozes.
Vi, no instante impossível de mensurar, o amor flamejante,
Repousar sobre os fios negros que te cobrem, uma vez mais.

Um Lugar

Porque o amor…
O amor não é sentimento.
Amor é um lugar!
Com altura, largura, e profundidade - Profundidade por demais.
E como para todo lugar,
Para o amor existe caminho,
Há falso atalho,
Existe ponto final.
O amor não é sentimento!
A vida é uma jornada,
E o amor é destino.
Porque o amor é lugar,
Tem caminho e endereço;
Fica estrategicamente situado
Entre o País das Maravilhas,
E a Terra do Nunca. 

O amor é um lugar em que você nunca está.