Acordei.

Meu amor,

Ontem acordei pensando em você. Meu primeiro suspiro, meu primeiro sentimento, minha primeira tristeza; Tudo teu.

Mas devo admitir: foi só! Fiz questão de tomar de volta o resto do dia para mim mesmo.  Não o entreguei de bandeja, como nas horas matinais anteriores. Não pensei sequer por um instante em te ligar. Tão pouco tive aquele pico de ansiedade e esperança quando o telefone tocou.

Sabe, meu amor, não devolverei os presentes. Acho que isso não se faz! Mas fique tranquila: teu livro, um carteiro qualquer entregará; sem saber de onde vem, tão pouco por que vai. De teu já não quero nada. Nem o amor correspondido! Se bem que esse… Esse nunca foi meu para que pudesse lhe devolver. Tente procurar em algum lugar dentro de si. Tenho certeza de que comigo não ficou.

Por falar em amor, minha querida, também este meu quero de volta. Sei que até tentou me enviar, mas o silêncio não me entregou o recado, tão pouco o sumiço se fez presente para devolvê-lo.  Por esse motivo, hoje decidi simplesmente tomá-lo de você; junto com o dia, o suspiro, sentimento e a tristeza.

Amiga minha, sinto em te dizer, mas algo eu não poderei entregar intacta. Sou bem desastrado, eu sei. Mas nesse transporte desajeitado nossa amizade espatifou-se. Eu tentei, te juro! Tentei pegar no ar, mais deixei cair (queria dizer como a canção “…mas não deixei, peguei no ar…”, mas não foi desse jeito. A arte imita a vida, a vida muda a arte e acho que é assim mesmo). Gostaria, porém de dividir a responsabilidade. Afinal, você, também decidiu envolvê-la – a nossa amizade – nesse delicado processo de transporte.

Agora, já sem nenhuma forma de tratamento cabível (nenhuma polida, ao menos), te chamarei de “Passado”. Pensei em outras formas que não carregassem toda essa gravidade que só o passado tem. Mas enfim, não encontrei. E será assim: uma página curta, um proêmio de poucas notas que jamais chegou a ser canção; intenso em riso e choro.

Admito por fim, em tom de acordo, te deixar todo o meu desprezo, desde que me deixe ficar com a lembrança do teu sorriso (aquele com os olhos entreabertos, antes, durante e após nossos beijos). Sei que parece uma troca injusta, mas não!  Será para mim um fiel e justo placebo, na cura da ferida que essa memória insistirá em reabrir.

Mas se quer saber, toma de volta também a lembrança. Há de existir no mundo outros sorrisos igualmente afiados, que reluzam sem depois me cortar.

Sem mais,
“Breve”.