Quem Sou Eu?

Eu sou o pequeno monte em cujas encostas crescem as faias,
De onde colhes o orvalho matinal que te sacia,
Em cujos galhos as aves se abrigam,
Dos quais o canto te alegra e anima.
Quem sou eu?

Eu sou as ondas do mar, ligeiras, fluindo entre os teus cabelos,
Que produzem as correntes, que te soltam.
E te levo a navegar, perto, longe, em nós.
Sou teu cais itinerante.
Quem sou eu?

Eu sou a brisa inesperada, que bagunça teus cabelos,
E que talvez te mareie os olhos, e te traga uma ou duas lágrimas.
Mas que te refresca na calmaria, te leva pra cama em noites incertas,
Te beija o rosto, aquece o leito.
Mas que passa rápido!
E se não me percebes, eu já parti.
E resta o ardor da solidão,
O frio da bruma que turva a visão.

E então te lamentarás.
Quem era eu?

Túmulo

Afinal, qual a graça de ser médico, e não rir da morte,
Ser programador, e não gargalhar com um loop infinito,
Ser normal, e não rir do esquisito,
Ser rico, e não zombar dos de pouca sorte?


E que graça há, em não desprezar o desconhecido,
Ser pobre e não rir da pobre riqueza alheia,
Ser popular e não gozar da menina feia,
E não diminuir o que já é falido?

Por fim, o cúmulo:
Qual a graça de ser mortal,
E não poder tripudiar sobre o seu próprio
Leito de morte?