Possessão

Minha poesia exibe o que já não consigo dizer.
Minhas fotos falam de uma alegria que não enxergo mais.
Meu sorriso transborda em tristeza.
Meu choro apenas não sai.

Meus amigos morreram todos.
Meu amor morreu também.
Minha solidão nada tem a ver com solitude.
Meu choro não comove ninguém.

Minha, minhas, meu, meus,
Sua, sua, teu.
Já não possuo meu tempo,
E você não possui o meu eu.

Dos Tijolos Que Eu Te Dei

Que distância mais pode nos separar, meu amor?
Nenhuma mais, além da que você mesma construiu.
Fui eu quem cedeu os tijolos? Pode ser!
Mas o cimento foi seu! Seu desprezo pelo simples diálogo,
Pela paciência não adquirida, misturada com o descaso.
Pelo seu sentimento, que era o mesmo que o meu,
Talvez não em intensidade, não em objetivos.
Seu cimento! Solidificado pelo sopro do adeus não dado,
Juntamente com o tempo da solidão – o tempo é só.

Quanto desperdício!
Poderíamos ter construído pontes,
Ligando teus sonhos aos meus.
Construímos muros!
E os fizemos altos, fortes e intransponíveis.
Mas foi você quem removeu portas e janelas do desenho original.
Foi você quem estragou o projeto.
Aliás, foi você quem acabou com o projeto – não terminou.

E agora você parte,
De uma distância costumeira, e palpável,
Para outra de milhares de quilômetros,
Mas também distante por igual.
Teríamos tijolos o suficiente para uma estrada?
Precisaríamos de uma estrada?

E de onde vem esse repentino medo da saudade,
Se ela já estava no meu peito? Sempre esteve, mesmo no começo.
E, se é assim que acabaremos por vezes, façamos outro acordo:
Leva contigo a saudade,
Mil seiscentos e dez quilômetros para longe de mim,
Que guardo comigo os tijolos,
Da estrada que jamais construirei a fim de ir te ver.

A Solidão do Mundo

Será que apenas eu estou ouvindo?
Será que ninguém mais percebe?
Eles estão gritando!
O mundo grita em agonia. O Mundo grita!
Vocês não conseguem ouvir?

A cada “Vai dar certo”,
A cada “superlação” do amor, e de tanta fé!
A cada demonstração exagerada de caráter e amizade.
Será que ninguém consegue ouvir?

Você já se sentiu só?
Já se sentiu perdido no escuro?
Afinal, deve ser assim que o mundo se sente,
Perdido na imensidão do espaço, no escuro.

As luzes são distantes, como estrelas
E o mundo se sente só.
As vozes são tão distantes (eu te amo… eu te amo…)
E o mundo se sente só.
As vozes são tão baixinhas (eu me importo.. eu me importo…)
E o mundo se sente só.

Você me pergunta - mas e o Sol?
Mas você já se sentiu só em meio a uma multidão?
É só isso: o Sol, queima sem o calor do abraço.
E o mundo se sente só, no escuro do espaço.

Já se sentou em frente a uma lareira,
Por horas e horas a se aquecer?
Foi melhor que o calor de um abraço?
O mundo não abraça. Só, se afasta.

Ele continua gritando.  Mais alto!
Você não consegue ouvir?
Sem direção, sem rumo.
Tudo é demais.

Quando não se conhece mais o que é verdade - Só há mentira.
E o mundo sente, e todo mundo se importa, e o mundo ama.
Mas é só de mentira. Pura mentira.
Porque o mundo está mesmo é gritando de dor.

E quando tudo é mentira, então pra quê lutar?
E todo mundo é gentil, e o mundo é intenso.
Mas é tudo mentira. Uma grande mentira.
Porque o mundo está mesmo é implorando!

As luzes são distantes, como estrelas
E o mundo se sente só.
As vozes são tão distantes (eu te amo… eu te amo…)
E o mundo se sente só.
As vozes são tão baixinhas (eu me importo.. eu me importo…)
E o mundo se sente só.

E é só! Todo mundo se sente só no mundo.